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Estamos perdendo a capacidade de conversar por causa do smartphone?

Para Sherry Turkle, a conectividade tem tirado nossa capacidade de ficar sozinhos
Se temos sinal de rede, nunca estamos sozinhos

Ciberespaço é um conceito que já não faz sentido, e seu próprio criador, o escritor William Gibson, admite isso. Antes, nos conectávamos para ir a um mundo virtual. Hoje, estamos o tempo todo conectados, com um smartphone no bolso e várias telas ao nosso redor a mostrar informações digitais.

Mas quais os impactos dessa hiperconectividade em nossas vidas? O smartphone tem tirado nossa capacidade de conversar com outras pessoas?

A psicóloga Sherry Turkle, autora do pioneiro Life on the screen e de Alone together, escreve sobre como somos afetados pelo digital.

Em seu livro novo, Reclaiming conversation: the power of talk in digital age (Recuperando a conversa: o poder de falar na era digital), resenhado por Jonathan Franzen no New York Times,  ela mostra, a partir de entrevistas, o descontentamento das pessoas com seus smartphones, e defende a revalorização da conversa sem intermediários tecnológicos.

Para Sherry Turkle, o uso exagerado da tecnologia tem levado as pessoas a perderem a capacidade de empatia e de educar os próprios filhos.

Franzen escreveu, em sua resenha:

A conversa pressupõe solidão, por exemplo, porque na solidão aprendemos a pensar por nós mesmos e desenvolvemos um sentido estável de identidade, o que é essencial para falarmos com outras pessoas. (Se não formos capazes de nos separar de nossos smartphones, diz Turkle, consumimos outras pessoas “em pequenos pedaços; é como se as usássemos como peças sobressalentes para apoiar nossos personalidades frágeis”.)

Por meio da atenção conversacional dos pais, as crianças constroem um senso de conexão duradoura e o hábito de falar sobre seus sentimentos, no lugar de simplesmente agir a partir deles. (Turkle acredita que conversas regulares em família ajudam a tornar as crianças “resistentes” ao bullying.)

Quem fala com alguém pessoalmente é forçado a reconhecer a realidade humana completa do outro, o que dá início à empatia. (Um estudo recente mostrou grande queda na empatia, quando medida por testes psicológicos padronizados, entre universitários da geração smartphone.)

E a conversa traz risco de tédio, condição que os smartphones nos ensinaram a temer mais do que tudo, e que também é a condição em que paciência e imaginação se desenvolvem.

Falta de atenção

Sven Birkerts é um crítico literário americano, que lançou, em 1994, o livro Gutenberg elegies: the fate of reading in an electronic age (Elegias de Gutenberg: o destino da leitura numa era eletrônica), em que criticava o efeito das novas tecnologias sobre a capacidade de leitura das pessoas.

Foi um livro importante para mim, quando escrevi minha dissertação de mestrado, no final da década de 1990, como contraponto a tantos outros autores entusiastas da tecnologia.

Birkerts também está de livro novo, Changing the subject: art and attention in the internet age (Mudando de assunto: arte e atenção na era da internet), resenhado no New York Times por Tim Parks.

Parks faz um resumo das preocupações de Birkerts:

Para sempre grudados a um tipo ou outro de tela, a clicar compulsivamente nos links que nos oferecem, perdemos a habilidade de nos concentrar, tornando-nos mais agitados e inquietos a cada dia, fazendo com que nossas consciências fiquem fragmentadas e dispersas. Nossa própria identidade é ameaçada quando nos convidam a pensar em realizações como objetivos mais coletivos que individuais, contribuição para a Wikipédia no lugar de afirmação pessoal distintiva. A cada passo a internet ou o navegador GPS nos distanciam do mundo e de nossos companheiros seres humanos, privando-nos de uma atividade de que gostávamos quando tínhamos de sair e encontrar por nós mesmos ao invés de termos o que nos é sugerido.

Foto: Tom Bream / Creative Commons

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