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Como intermediadoras de pagamento mudam o setor bancário

Intermediadoras de pagamento: Empresas asiáticas como PayTM e o AirTel criaram sua própria categoria de serviços financeiros / Sekihan/Creative Commons
Empresas asiáticas como PayTM e o AirTel criaram sua própria categoria de serviços financeiros / Sekihan/Creative Commons

A tecnologia coloca o mercado de cabeça para baixo. Hotéis e táxis foram apenas as primeiras atividades econômicas a sentir o impacto dos smartphones, conectados o tempo inteiro com a internet e a um bolso de distância.

Até pouco tempo, o uso pessoal de computadores por mim e alguns colegas era quase exclusivo para a realização de atividades relacionadas às faculdades de tecnologia da informação — nome, aliás, que hoje soa engraçado.

Nos sentávamos na frente de uma dessas máquinas para digitar textos, acessar páginas com informações, conversar com pessoas a longas distâncias ou jogar.

Com o surgimento dos dispositivos móveis, percebi uma mudança significativa: a interação com a computação deixou de ser uma atividade-fim e passou a ser um meio.

Um botão (ainda que virtual)  apertado no telefone hoje pode chamar um helicóptero! Quem imaginou que isso seria possível tão cedo?

Banco como commodity

Piero Contezini, da Asaas / Divulgação
Piero Contezini, da Asaas / Divulgação

No setor financeiro, essa transformação já começou.

Ainda estamos no começo, é verdade, mas a necessidade de ir a um banco para fazer algo relativamente simples como guardar o seu dinheiro, já é parte integrante do nosso passado.

Dentre as centenas de serviços que uma instituição dessas poderia oferecer a você, o mais importante era que o seu dinheiro estivesse seguro e acessível a todo tempo.

Com a evolução da tecnologia, guardar o dinheiro perdeu relevância, se tornou uma commodity.

Hoje você se preocupa muito mais com a possibilidade de pagar qualquer coisa com um cartão de crédito ou débito, sem precisar tirar o dinheiro do banco.

Isso pode tornar esse tipo de instituição desnecessária — veja que o Nubank presta um serviço que antes era exclusivo dos bancos sem exigir que o cliente tenha sequer uma conta corrente.

O que as pessoas começaram a perceber é que o serviço entregue pelos bancos não atende mais às suas necessidades.

Agora são as empresas que estão enxergando isso, e a cada dia caminham em direção a mudança das suas operações de envio e recebimento de dinheiro dos bancos para outras instituições.

Intermediadoras de pagamento

No mundo, uma categoria completamente inovadora de serviços financeiros foi batizada de payment banking.

Essas empresas prestam serviços muitos similares aos dos bancos, porém não são instituições financeiras de fato, e sim intermediadoras de pagamento.

Alguns exemplos são o PayTM e o AirTel, dois unicórnios asiáticos que resolveram problemas tão grandes na Ásia a ponto de criarem sua própria categoria de serviços financeiros.

No Brasil, estamos caminhando para um ambiente de desbancarização total dos serviços financeiros.

Com a regulamentação dos arranjos de pagamento pelo Banco Central e o entendimento das competências das instituições desse tipo, o BC dá ao mercado a possibilidade de fazer o que há anos vem tentando: tirar o poder dos maiores bancos do país e democratizar o acesso ao sistema financeiro nacional.

As vantagens são óbvias, e uma delas é a inovação: empresas com a minha (disclaimer: sou um payment banking focado em ajudar o empreendedor individual a receber e enviar dinheiro) ajudam o mercado a balizar o valor dos serviços financeiros, além de proverem acesso à pessoas que antes não teriam condições financeiras para contratar esses serviços — até porque quase todo banco cobra uma mensalidade relativamente alta para guardar seu dinheiro.

Historicamente temos as maiores taxas do mundo e um dos piores níveis de atendimento ao cliente quando se fala de finanças. Como disse Jeff Bezos, “sua margem de lucro é a minha oportunidade”.

Tendência de desbancarização

Cada linha de receita dos bancos tradicionais deverá dar origem a um unicórnio que vai transformar completamente o mercado, alterando a percepção de valor entregue pelo tipo de produto.

O que nós conhecemos por banco também tende a mudar — vide a iniciativa do pessoal da SuperLógica com o PJBank.

Eles estão criando uma organização que entrará na regra de negócio de empresas de pequeno e médio porte, criando soluções de valor agregado não somente para guardar dinheiro, mas para enviá-lo e manipulá-lo de formas completamente inovadoras.

Há uma centena de instituições de pagamentos prontinhas para arrancar clientes dos bancos, e isso tem gerado diversas iniciativas por parte deles para reverter a tendência de desbancarização.

Todas tiveram pouco sucesso até agora. Do lançamento de bancos para millennials a compras de empresas enormes, os grandes irão tentar impedir essa tendência de qualquer forma, mas assim como é impossível lutar contra a propagação da informação, acredito que a desbancarização também seja algo que fuja do controle de qualquer entidade.

Basta ver que existem blockchains e redes de transferência de dinheiro peer to peer (pessoa a pessoa), e em alguns anos até os sistemas financeiros dos países poderão entrar em colapso, dando origem a uma pseudoanarquia financeira controlada pelo consenso entre as partes envolvidas.

Quem ganhará será o usuário, que terá cada vez mais acesso a serviços pagando menos. Que tempo para se viver!

  • Piero Contezini é CEO e cofundador do Asaas

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